O crescente número de denúncias sobre activistas que alegadamente utilizam o seu estatuto para obter benefícios pessoais junto do Executivo, partidos políticos e outras entidades está a preocupar especialistas angolanos, que alertam para o impacto desta prática na credibilidade do movimento cívico.
Em declarações sobre o tema, o investigador Cláudio Fortuna afirmou que este fenómeno não é novo em Angola, mas tende a intensificar-se durante os períodos eleitorais. Segundo o académico, a instrumentalização de activistas não se restringe ao partido no poder.
Na sua análise, tanto o Executivo como formações políticas da oposição recorrem, em determinados casos, a activistas para conferir maior legitimidade às suas mensagens ou testar narrativas políticas junto da opinião pública.
Cláudio Fortuna considera que uma eventual perda de confiança dos cidadãos nos activistas poderá representar um sério revés para a defesa dos direitos cívicos e para a construção de uma sociedade mais justa.
Por sua vez, o cientista político Eurico Gonçalves defende que o exercício do activismo exige idoneidade, independência moral e transparência, salientando que a credibilidade de um activista depende da confiança que inspira na sociedade.
Entre as soluções apontadas, Eurico Gonçalves propõe a criação de códigos de ética, mecanismos de prestação de contas, maior investimento em educação cívica e o fortalecimento de uma cultura de integridade.
Já João Malavidele, responsável da organização não-governamental OMUNGA, apelou a uma reflexão sobre os valores que devem orientar a acção dos defensores dos direitos humanos. Para o activista, transformar a intervenção cívica num instrumento de benefício pessoal compromete não apenas a reputação individual, mas também a legitimidade da causa defendida.
Os especialistas recordam que o movimento de activismo em Angola ganhou maior expressão após a Primavera Árabe, quando surgiram diversos grupos e activistas que protagonizaram manifestações e acções de contestação durante o consulado do então Presidente José Eduardo dos Santos.
Embora reconheçam a importância do activismo para o fortalecimento da democracia, os analistas defendem que a preservação da sua credibilidade passa por um compromisso permanente com a ética, a independência e o interesse público.
O activismo cívico em Angola ganhou maior visibilidade a partir de 2011, impulsionado por movimentos juvenis e organizações da sociedade civil que passaram a reivindicar reformas políticas, maior transparência e respeito pelos direitos humanos. Desde então, o sector tem desempenhado um papel relevante no debate público, mas também tem enfrentado críticas relacionadas com a sua organização, financiamento e independência.
Fonte: DW