Ex-vice-presidente defende maior capacidade de negociação, transformação das matérias-primas e reforço do comércio intra-africano.
O ex-vice-presidente da República de Angola, Manuel Domingos Vicente, considera que os erros cometidos nas negociações entre Angola e a China foram, sobretudo, da responsabilidade dos próprios angolanos, por não terem defendido os interesses nacionais com suficiente firmeza.
“Foi erro nosso. Não foi erro deles. Porque não defendemos nossos interesses com firmeza”, afirmou Manuel Vicente, numa entrevista sobre as relações financeiras entre a China e África e os mecanismos que estiveram na base do chamado “modelo angolano”.
A declaração ganha particular relevância pelo percurso de Vicente. Antes de assumir a vice-presidência da República, entre 2012 e 2017, dirigiu durante mais de uma década a Sonangol, empresa que esteve directamente envolvida nos mecanismos de financiamento garantidos por petróleo utilizados na reconstrução de Angola depois da guerra civil.
Da recusa ocidental à aproximação com a China
Segundo o relato apresentado por Vicente, a aproximação financeira de Angola à China ocorreu depois de o país procurar apoio no Ocidente na sequência do fim da guerra civil, em 2002.
A delegação angolana, da qual Vicente fazia parte, procurou Washington, o Clube de Paris, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Segundo o antigo governante, não conseguiu obter o financiamento necessário para a reconstrução do país.
“Não conseguimos convencer o governo americano a nos dar essa ajuda”, afirmou, acrescentando que Angola acabou por procurar alternativas no Oriente.
O primeiro financiamento chinês referido na entrevista foi de dois mil milhões de dólares, garantido por petróleo bruto. Outros financiamentos seguiram-se, consolidando uma relação que viria a tornar-se uma das mais estudadas no âmbito da cooperação entre a China e os países africanos.
“É preciso definir limites”
Questionado sobre se a China teria alterado a sua abordagem para aproveitar a fragilidade de Angola no período pós-guerra, Manuel Vicente rejeitou essa interpretação.
Na sua leitura, os chineses mantiveram a defesa dos seus próprios interesses, como faria qualquer outro parceiro numa negociação. O problema, segundo ele, esteve na capacidade angolana de proteger os seus interesses.
“Tentam tirar o máximo proveito possível. É preciso definir limites”, afirmou.
Vicente defende, assim, uma perspectiva diferente da tradicional disputa entre a narrativa da chamada “armadilha da dívida” e a defesa dos empréstimos chineses como simples instrumentos de cooperação. Para o antigo vice-presidente, existiu uma relação assimétrica, mas isso não significa necessariamente que Angola tenha sido vítima de uma estratégia predatória.
A questão central, na sua perspectiva, está também na capacidade dos negociadores angolanos.
Menos matérias-primas, mais transformação
Outro dos pontos defendidos por Manuel Vicente é a necessidade de Angola abandonar gradualmente o modelo baseado na exportação de matérias-primas sem transformação interna.
O antigo governante defende que petróleo, diamantes, minério de ferro e outros recursos devem ser processados dentro do continente, criando maior valor acrescentado e capacidade industrial.
“Deveríamos deixar de ser exportadores de matérias-primas”, afirmou, defendendo simultaneamente uma maior cooperação com empresas e países de diferentes regiões do mundo.
A ideia é particularmente relevante para Angola, cuja economia continua fortemente dependente do petróleo. Vicente aponta a transformação interna dos recursos como uma das condições para alterar a posição do país na economia internacional.
Comércio africano como prioridade
Manuel Vicente também defende que Angola deve reforçar primeiro as relações comerciais dentro de África antes de concentrar os seus esforços na procura de grandes parceiros externos.
“Devemos aumentar nosso comércio interno na África”, afirmou, apontando para a necessidade de reduzir barreiras entre países e desenvolver infra-estruturas que facilitem a circulação de pessoas e mercadorias.
Para o antigo vice-presidente, a construção de estradas e ferrovias e a melhoria da circulação continental poderiam criar condições para uma maior integração económica africana.
“Se você não se conhece profundamente, é difícil seguir em frente”
Entre as prioridades apontadas por Vicente está ainda uma questão menos associada aos debates sobre financiamento: a necessidade de os países africanos conhecerem melhor as suas próprias populações.
O antigo governante questiona a qualidade dos dados demográficos disponíveis em vários países africanos e defende que os Estados devem saber quantas pessoas têm, onde vivem e quais são as suas condições.
“Se você não se conhece profundamente, é difícil seguir em frente”, afirmou.
A posição sintetiza a visão apresentada ao longo da entrevista: as relações externas podem gerar oportunidades, mas a capacidade de aproveitá-las depende das estruturas internas de cada país.
“Ninguém fará isso por você”
No centro da reflexão de Manuel Vicente está uma ideia que atravessa diferentes momentos da entrevista: Angola e os restantes países africanos devem assumir maior responsabilidade pela defesa dos seus próprios interesses.
Para o antigo vice-presidente, a competição entre grandes potências pode ser aproveitada por países de dimensão média, desde que estes compreendam os seus interesses e tenham capacidade para negociar.
“Ninguém fará isso por você. Você precisa fazer isso sozinho”, resume a posição apresentada na entrevista.
O relato de Vicente, porém, é também o de um protagonista directamente envolvido no período em que estes mecanismos de financiamento foram construídos. Por isso, a sua interpretação constitui uma perspectiva de um participante nos processos que descreve e não uma avaliação independente dos acordos.
Fonte: aprcglobal