O académico guineense Carlos Lopes defendeu que África precisa de abandonar a ideia de que o seu desenvolvimento será impulsionado essencialmente pelos chamados parceiros estratégicos internacionais, argumentando que o principal desafio continua a estar dentro do próprio continente.
Durante a primeira edição do debate "Pensar Global", realizada a 15 de Junho, o economista afirmou que existe uma visão excessivamente dependente da ajuda externa e do investimento estrangeiro, enquanto questões estruturais fundamentais continuam sem resposta.
"Engana-se quem pensa que os parceiros estratégicos serão responsáveis pelo nosso desenvolvimento."
Um dos pontos centrais da intervenção de Carlos Lopes foi a constatação de que África permanece um exportador líquido de capital.
Apesar dos frequentes debates sobre ajuda ao desenvolvimento, financiamento internacional e investimento estrangeiro, o académico sublinhou que o continente continua a transferir mais riqueza para o exterior do que aquela que consegue reter internamente.
"Apesar de sermos um dos continentes menos desenvolvidos do mundo, África é exportadora de capital."
Segundo o especialista, esta realidade evidencia uma profunda contradição económica. Enquanto governos e empresários procuram investimento externo para financiar o desenvolvimento, uma parte significativa da riqueza gerada em África continua a ser aplicada fora do continente.
Carlos Lopes lançou ainda uma questão que considera central para compreender os desafios do desenvolvimento africano.
"Quem vai investir em África se os próprios africanos põem os seus dinheiros fora?"
A pergunta foi apresentada como uma crítica directa às elites económicas africanas que, frequentemente, optam por transferir capitais para mercados considerados mais seguros ou mais rentáveis fora do continente.
Para o académico, esta prática reduz a capacidade de financiamento interno, limita o crescimento do sector privado africano e enfraquece o processo de transformação económica.
Durante a intervenção, Carlos Lopes também relativizou a importância da ajuda ao desenvolvimento no contexto actual das economias africanas.
Segundo os dados apresentados, as remessas enviadas pela diáspora africana atingiram cerca de 100 mil milhões de dólares no último ano, aproximadamente o dobro da ajuda internacional recebida pelo continente.
O especialista considera que esta realidade demonstra que o futuro de África dependerá cada vez mais da mobilização dos seus próprios recursos financeiros do que da assistência externa.
Carlos Lopes é professor da Mandela School of Public Governance da Universidade da Cidade do Cabo e foi secretário-geral adjunto das Nações Unidas durante o mandato de Kofi Annan. É considerado uma das vozes africanas mais influentes em matérias de desenvolvimento económico e integração continental.
As declarações foram feitas durante o debate "África e o Mundo, Repensar o Presente e Redefinir o Futuro", integrado na iniciativa "Pensar Global".
As reflexões de Carlos Lopes surgem num momento em que África apresenta algumas das taxas de crescimento económico mais elevadas do mundo. No entanto, o académico alerta que o verdadeiro desafio não é apenas crescer, mas garantir que a riqueza produzida permaneça no continente e seja transformada em investimento produtivo, emprego e desenvolvimento sustentável.