Aos 83 anos, o músico angolano Bonga considera que a indústria musical vive uma crise de identidade e defende que a notoriedade não pode substituir o talento nem o trabalho artístico. Em entrevista concedida durante o Festival MED, em Loulé, Portugal, o artista afirmou que atualmente existem "mais famosos do que artistas".
Com mais de cinco décadas de carreira, mais de 400 composições e dezenas de álbuns editados, Bonga sustenta que um verdadeiro artista constrói-se com disciplina, estudo, observação e respeito pelas raízes culturais.
"O artista vai-se fazendo, não nasce do dia para a noite", afirmou, lembrando que a sua formação começou ainda na infância, através dos grupos folclóricos dos bairros de Luanda, da aprendizagem dos instrumentos tradicionais e do contacto com os mais velhos.
Ao analisar a nova geração de músicos, o intérprete de Mona Ki Ngi Xica reconheceu que existem talentos promissores, mas considera que representam uma minoria. Segundo o cantor, muitos artistas privilegiam o sucesso imediato em detrimento da qualidade musical e da mensagem transmitida.
Bonga criticou ainda a crescente ausência de instrumentistas e compositores, defendendo que parte da música produzida atualmente perdeu profundidade artística e social.
Durante a conversa, o músico recordou também o impacto histórico do álbum Angola 72, lançado durante a luta pela independência, e reafirmou que a arte continua a ser uma poderosa ferramenta de resistência, memória e denúncia das desigualdades sociais.
Apesar do reconhecimento internacional, o artista revela que a sua prioridade nesta fase da vida é preservar o legado construído ao longo da carreira e dedicar mais tempo à família, especialmente aos filhos gémeos.
"O que mais me preocupa é garantir que nada se perca", afirmou, sublinhando que continua a organizar e preservar as centenas de composições que produziu ao longo da vida.
Nascido na província do Bengo, Bonga é considerado um dos maiores embaixadores da música angolana. A sua obra ajudou a internacionalizar o semba e tornou-se símbolo da resistência cultural durante o período colonial, influenciando várias gerações de músicos africanos e da diáspora.
Fonte: BANTUMEN.