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Escritor angolano Lucas Cassule prepara lançamento de Anastasyia para 11 de julho

Às vésperas do lançamento de Anastasyia, marcado para o dia 11 de julho, o escritor angolano Lucas Cassule conversou com a Revista Oku Saka sobre a origem da obra, o processo de escrita, a ficção inspirada em fragmentos reais e o papel da literatura na compreensão da realidade angolana. Nesta entrevista, o autor fala sobre guerra, memória, imaginação e o poder transformador dos livros.


Oku Saka: Como nasceu a ideia de escrever Anastasyia?

Lucas Cassule: Anastasyia surgiu de uma fotografia da blogger Emanuela Pinheiro. Em 2023, o mundo assistia ao segundo ano da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e circulavam inúmeras notícias sobre bombardeamentos, famílias chacinadas e crianças que acabavam de perder os pais e ficavam sem nada. Ao olhar para a fotografia da Ema, imaginei uma daquelas mulheres que corre despreocupadamente por uma das ruas de Mariupol, com um par de patins nos pés, sem saber que o cenário da sua vida poderia mudar em fracção de segundos. Pensei no futuro de uma rapariga que perdeu a casa, a família e se vê completamente sozinha para enfrentar o mundo. Foi assim que nasceu este conto.

A sinopse refere que os contos surgem de "fragmentos reais". Em que momento percebeu que essas histórias dispersas poderiam formar um livro?

Lucas Cassule: Sinceramente, quando escrevi Anastasyia, não tinha o objectivo de o publicar em livro. Pretendia disponibilizá-lo na Internet para que o mundo pudesse reflectir comigo sobre os males da guerra. No entanto, quando voltei a ler o resultado, apaixonei-me pelo conto e decidi guardá-lo para um momento especial.

Qual foi o maior desafio ao transformar experiências reais em ficção?

Lucas Cassule: Penso que o principal desafio é sermos fiéis a nós próprios e, ao mesmo tempo, contarmos a nossa verdade sem desrespeitar a verdade dos outros.

Anastasyia é uma personagem, um símbolo ou uma metáfora?

Lucas Cassule: Anastasyia pode ser aquilo que cada leitor quiser que seja. Tudo depende dos olhos e do coração de quem entrar em contacto com a sua verdade.

Porque escolheu este nome para dar título à obra?

Lucas Cassule: Os nomes, tanto na ficção como na vida real, pertencem sempre a um contexto, a uma cultura, e todos contam uma história. Anastasyia obedece ao mesmo princípio. Infelizmente, não posso revelar muitos detalhes para não quebrar a magia.

O que distingue Anastasyia dos restantes protagonistas dos contos?

Lucas Cassule: Todos os contos são diferentes na abordagem, no contexto e na geografia. Anastasyia é um dos poucos que foi construído sobre um cenário real de guerra e destruição. Talvez seja o único onde o amor e uma bala de fuzil caminham pelo mesmo vale.

A obra procura revelar "as verdades de Angola". Que verdades considera mais urgentes de contar?

Lucas Cassule: Todas as nossas verdades são urgentes: as boas e as menos boas. Temos muito para mostrar ao mundo. Se tivermos consciência disso e investirmos os esforços necessários, o impacto será real e global. A título de exemplo, Angola é um país repleto de talentos. Vejo diariamente pessoas a fazerem o impossível com poucos recursos. Imagine o que seriam capazes de realizar se lhes fossem concedidas mais oportunidades.

Como pode a literatura contribuir para uma compreensão mais profunda da realidade angolana?

Lucas Cassule: Essa é uma daquelas perguntas que já parece trazer a resposta consigo: os livros são as fotografias do seu tempo. Para cumprirem verdadeiramente esse papel na sociedade, precisam de investimento, valorização e reconhecimento como parte das necessidades fundamentais de um povo.

Que estereótipos sobre Angola pretende desafiar através destes contos?

Lucas Cassule: A minha missão é contribuir para que os olhos do mundo também reconheçam Angola como uma potência na arte de contar histórias e mostrar que os lugares menos privilegiados também produzem grandes autores. Só isso já é, por si, um desafio aos estereótipos.

O livro é também uma forma de intervenção social?

Lucas Cassule: Quem lê, pensa. Quem pensa, questiona. Quem questiona, muda.

Que emoções espera despertar nos leitores?

Lucas Cassule: Espero que os leitores se sintam livres ao ler os meus livros e que meditem sobre as verdades que lhes apresento.

O que gostaria que permanecesse na memória do leitor depois da última página?

Lucas Cassule: A maioria dos contos é especulativa. Por isso, espero que os leitores sejam capazes de reconstruir outros finais e de continuar a dialogar com as personagens muito depois de fecharem o livro.

Qual foi a maior descoberta que fez sobre si mesmo ao escrever este livro?

Lucas Cassule: É uma boa pergunta, sabia? Acho que, ao concluir estes contos, descobri que a minha capacidade imaginativa me permite criar coisas ainda maiores.

Que pergunta gostaria que os leitores lhe fizessem e raramente fazem?

Lucas Cassule: Não crio muitas expectativas em relação às pessoas, mas acredito que elas são capazes do impensável. Por isso, não existe nenhuma pergunta que deseje antecipadamente que me façam. Os leitores devem continuar livres.

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