O humorista angolano Gilmário Vemba manifestou preocupação com o crescimento de conteúdos jornalísticos publicados nas plataformas digitais sem, segundo entende, o devido rigor na verificação das informações e no respeito pelo contexto das declarações.
A posição foi apresentada durante a sua participação no podcast Batata Quente, apresentado por Miro Vemba e Scaitt Borrabeu, onde o humorista falou sobre a forma como declarações de figuras públicas são reproduzidas nas redes sociais e posteriormente transformadas em manchetes.
“Nem tudo que falo vira manchete”
Gilmário Vemba começou por estabelecer uma diferença entre a imprensa tradicional e parte do actual ecossistema digital. Na sua perspectiva, a expansão das páginas e plataformas digitais tornou mais fácil a publicação de conteúdos por pessoas que não estão necessariamente sujeitas às mesmas responsabilidades profissionais e deontológicas dos órgãos de comunicação social.
O humorista afirmou que actualmente uma fotografia ou uma declaração pode ser retirada do seu contexto, acompanhada por um texto e publicada como notícia, muitas vezes sem que o leitor tenha acesso à declaração completa ou consiga identificar os critérios utilizados para a sua selecção.
É neste contexto que Gilmário utiliza a expressão “jornalismo de recorte”, referindo-se à prática de retirar uma frase, imagem ou excerto de uma intervenção e transformá-lo num conteúdo autónomo.
Para o humorista, a prática não é inteiramente nova, uma vez que os meios tradicionais também trabalham com manchetes e destaques. A diferença, defende, está no facto de a manchete tradicional funcionar como porta de entrada para uma informação mais desenvolvida, enquanto no ambiente digital muitas pessoas ficam apenas pelo título.
Declaração atribuída a Gilmário gera indignação
Durante a conversa, Gilmário relatou ainda ter recebido uma mensagem contendo uma frase atribuída a si que não reconhecia.
Segundo contou, a publicação afirmava que “mesmo se tiveres 52 anos e se não tiveres dinheiro ainda és infantil”. O humorista disse ter ficado surpreendido e questionou onde teria feito aquela declaração.
O episódio, na sua leitura, demonstra um dos riscos do actual ambiente digital: declarações podem ser atribuídas a determinadas figuras sem que estas tenham efectivamente pronunciado as palavras que lhes são imputadas.
Gilmário defendeu, por isso, que os leitores devem ter maior atenção à origem dos conteúdos que consomem e que os responsáveis pela produção de informação devem assumir maior responsabilidade na confirmação das declarações e dos respectivos contextos.
“Só preciso que venhas responder”
O humorista abordou ainda a utilização estratégica de declarações polémicas, sobretudo no contexto político.
Segundo Gilmário, existe uma lógica em que alguém pode lançar uma acusação ou afirmação sem necessariamente precisar de provar a sua veracidade, bastando conseguir provocar uma reacção da pessoa visada.
“Eu não preciso que a coisa que eu fale sobre ti seja verdade, só preciso que venhas respondê-la”, explicou.
Na sua análise, quando a pessoa responde, a própria resposta passa a constituir um novo elemento noticioso. Assim, uma afirmação inicialmente sem espaço na imprensa tradicional pode ganhar visibilidade depois de ser contestada publicamente.
Gilmário considera que os meios de comunicação social têm a capacidade de seleccionar determinados elementos de uma polémica e dar-lhes maior destaque, mesmo quando o conteúdo não representa necessariamente o essencial da questão.
A facilidade de publicação permitiu o surgimento de novos projectos de comunicação e ampliou o acesso do público à informação. Ao mesmo tempo, tornou mais difícil distinguir conteúdos jornalísticos de opiniões pessoais, páginas de entretenimento, agregadores e publicações criadas essencialmente para gerar tráfego e monetização.
