As recentes ações filantrópicas promovidas por influenciadores estrangeiros, principalmente brasileiros, em comunidades de Angola estão a gerar debate nas redes sociais sobre a exposição da pobreza e o uso da imagem de populações vulneráveis como conteúdo digital para engajamento e monetização.
Durante uma campanha solidária de Natal em Angola, promovida por influenciadores brasileiros, o influenciador brasileiro Cesar Rincon anunciou a aquisição de um gerador elétrico para a comunidade no Bengo. No mesmo contexto a resposta de uma criança sobre como investiria cinco milhões de dólares ganhou destaque.
"O meu bairro é lindo, mas não tem energia elétrica nem água. Eu colocaria asfalto aqui, água, trabalharia com agricultura, ajudaria toda a minha família, e o que restar, eu ajudaria o povo", disse a criança.
Entretanto, a polémica ganhou força após a circulação de publicações que questionam o impacto simbólico e financeiro da divulgação de imagens de crianças e comunidades em situação de vulnerabilidade. Críticos alertam que a ajuda pontual pode ser acompanhada por conteúdos de grande alcance, sem garantias de proteção da dignidade dos retratados.
A jornalista e pesquisadora angolana Tina Calamba, residente no Brasil, defendeu que a filantropia não deve reforçar a lógica do “salvador” nem reduzir África à fome e à carência extrema. Para Tina, a visibilidade não deve significar exposição de rostos e fragilidades como instrumento de engajamento.
A influenciadora Sara Cuca também se pronunciou, afirmando que Angola não se resume às dificuldades sociais e que a insistência nesse tipo de narrativa invisibiliza outras realidades do país. Ainda assim, reconheceu o valor das iniciativas solidárias quando realizadas com equilíbrio e responsabilidade.
Já o artista C4 Pedro lembrou que a pobreza não é exclusiva de África. "Sabemos que também tem muitos a sofrerem no Brasil” disse C4 Pedro defendendo uma abordagem mais equilibrada na representação social.
"Vocês querem correr com os brasileiros que fazem filantropia em Angola? E vocês o que farão? Ficarão de braços cruzados?" questionou o filantropo Alberto Satírico em outra publicação.
