Oku Saka

Falta de especialistas limita acesso a cuidados dentários para autistas em Angola

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), também conhecido simplesmente como autismo, é uma condição do neurodesenvolvimento que afecta principalmente a comunicação (verbal e não verbal), interação social e o comportamento (com padrões repetitivos, interesses restritos).

Ele pode variar de pessoa para pessoa, de casos mais leves a mais complexos, com características e níveis de apoios diferentes.
Indivíduos com autismo frequentemente apresentam alterações no processamento sensorial, o que significa que podem ser mais sensíveis (hipersensibilidade) ou menos sensíveis (hipossensibilidade) a estímulos como cheiro, som, luz, sabor e textura.

Quando essa condição está associada à selectividade alimentar – bastante comum nesses pacientes – surgem desafios adicionais para a saúde oral. Por isso, é fundamental que responsáveis e médicos-dentistas adotem uma abordagem mais cuidadosa e adaptada, garantindo não só uma higienização eficaz da cavidade oral, mas também um atendimento no consultório mais confortável e adequado às necessidades de cada indivíduo.

Para abordar a higienização oral e o atendimento de pacientes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) no consultório dentário, decidimos entrevistar uma das poucas médicas dentistas angolanas com formação específica em Odontologia para PACIENTES COM NECESSIDADES ESPECIAIS e cuja prática clínica é dedicada a esse público.

A Drª Alice Júlia Guerreiro é uma profissional da área da saúde com uma formação académica sólida e multidisciplinar. Possui duas licenciaturas: uma em Medicina Geral, concluída em Luanda, na Universidade Agostinho Neto, e outra em Odontologia, realizada no Brasil. Além disso, conta com pós-graduação em Gestão de clínicas Odontológicas, formação em Harmonização Facial e Laserterapia, Odontologia Hospitalar, bem como especialização em Odontologia para PACIENTES COM NECESSIDADES ESPECIAIS – área na qual concentra grande parte da sua atuação clínica.

Poderia explicar para nós o que é a Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais?

É uma área da odontologia (medicina dentária) que lida com pacientes que necessitam de cuidado e acompanhamento diferenciado, quer sejam por razões físicas, mentais ou cognitivas, médicas e até mesmo sociais.

Nesse grupo incluem-se pessoas com síndromes genéticas, como a síndrome de Down, indivíduos com autismo, bem como pacientes com doenças crónicas, como diabetes, doença renal e hipertensão. Além disso, também abrange grupos como gestantes, que exigem atenção particular durante o atendimento odontológico.

Como está o acesso aos serviços de saúde dentária em Angola para os pacientes com autismo?

Actualmente, em Angola, o acesso aos serviços de saúde dentária para pacientes com autismo ainda é bastante limitado.

Em primeiro lugar, há pouca informação sobre a especialidade, que ainda é relativamente recente no país. Essa falta de conhecimento contribui diretamente para a baixa procura e para a limitada oferta de serviços adequados.

Em segundo lugar, existe uma escassez significativa de profissionais capacitados para esse tipo de atendimento. Em todo o país, há apenas duas médicas dentistas com especialização no cuidado de pacientes com necessidades especiais: a Drª Ruth Vanda e eu.

Além disso, o atendimento a pacientes autistas frequentemente exige a adaptação do ambiente clínico e dos materiais utilizados – uma realidade que ainda não está plenamente implementada, tanto no sector público quanto no privado.

Outro desafio importante é a limitação de recursos materiais. Muitos dos materiais necessários precisam ser adquiridos no exterior, já que não há produção local suficiente, como acontece, por exemplo, com dispositivos utilizados para a intervenção física de segurança e a regulação assistida.

Diante desse cenário, fica evidente que ainda há um longo caminho a percorrer. É necessário um esforço conjunto entre instituições e profissionais de saúde, com especial foco na educação em saúde, para melhorar o acesso, a qualidade do atendimento e a inclusão desses pacientes no sistema de saúde.

Qual é a importância dos cuidados de saúde Oral para pacientes com autismo?

A saúde oral é fundamental para todos, mas torna-se ainda mais importante em pacientes com necessidades especiais. Se nós, enquanto pessoas típicas e com plena capacidade cognitiva, já estamos sujeitos a problemas como cáries e doenças periodontais quando não cuidamos adequadamente da nossa higiene oral, esses riscos são ainda maiores em pacientes que necessitam de cuidados adicionais.

Muitos desses pacientes não conseguem realizar a sua higiene oral de forma autónoma, dependendo diretamente dos seus cuidadores. Por isso, o cuidado deve ser redobrado e contínuo. Além disso, a falta de uma boa higiene oral pode contribuir para o desenvolvimento de outras doenças sistémicas. Nesse sentido, a prevenção assume um papel indispensável.

Garantir uma boa saúde oral nesses pacientes não é apenas uma questão de conforto, mas sim de qualidade de vida e de saúde geral.

Quais são as doenças orais que mais afectam os indivíduos com autismo?

As condições mais observadas são o acúmulo de placa bacteriana (que leva ao tártaro), a cárie dentária e a gengivite, geralmente como consequência de uma higiene oral inadequada ou insuficiente. Para além disso, podem estar presentes hábitos para-funcionais como o bruxismo, que também contribuem para o agravamento da saúde oral.

Esses problemas podem surgir por diversos fatores, como a falta de conhecimento dos cuidadores, negligência involuntária ou até dificuldades no manejo durante a higienização, especialmente em casos em que há resistência, agressividade ou pouca cooperação, frequentemente associadas a dificuldades motoras e sensoriais. Nessas situações, o momento da higiene oral pode tornar-se particularmente desafiador para os responsáveis.

Quais são os maiores desafios no atendimento desses pacientes?

Um dos principais desafios é a adaptação do ambiente clínico às necessidades específicas de cada paciente. Quando essa adaptação não é feita, o próprio paciente acaba por ter de se ajustar ao ambiente, o que pode ser difícil, demorado e, muitas vezes, inviável, sobretudo em indivíduos com hipersensibilidade sensorial.

Em casos específicos, como em pacientes com autismo, é fundamental respeitar métodos e exigências relacionados a rotina. Isso aplica-se tanto à consulta quanto à elaboração e execução do plano de tratamento. Ignorar esses aspectos pode comprometer ou até impossibilitar o atendimento.

Outro ponto essencial é a construção da confiança. As dificuldades de interação e socialização tornam as primeiras consultas mais desafiadoras, especialmente em pacientes não verbais ou com alterações no desenvolvimento motor. Por isso, nas consultas iniciais, mais do que focar exclusivamente no diagnóstico e tratamento, é importante investir num diálogo empático, explicando o ambiente, os procedimentos e o que será feito.

Essa abordagem contribui para reduzir o medo e a ansiedade (quando presentes), aumentar a confiança e facilitar significativamente as consultas futuras.

O que será necessário para que essa realidade possa ser mudada?

A mudança começa com mais informação, mais diálogo e maior divulgação sobre o tema. Ao promovermos a educação para a saúde, conseguimos transformar a mentalidade da população em geral, desde a comunidade até às instituições, incluindo o próprio governo.

É igualmente importante reforçar o papel do médico-dentista no cuidado integral da saúde de indivíduos com problemas do neurodesenvolvimento, havendo a necessidade de ser integrado na equipe multidisciplinar que presta cuidados a pacientes com autismo.

Faço essa ressalva porque, ainda hoje, mesmo entre profissionais de saúde, especialmente médicos, existe uma informação errónea sobre essa área. Como consequência, persiste a ideia equivocada de que o médico-dentista limita-se a extrair dentes ou realizar restaurações, o que está longe da realidade.

A atuação do médico-dentista é ampla e complexa, envolvendo mais de 20 especialidades. Trata-se de um profissional preparado para lidar com diferentes condições sistémicas e contextos clínicos.

Na minha prática, por exemplo, atendo pacientes com diversas condições, como doenças renais, hipertensão, diabetes e até gestantes, incluindo atendimentos em ambiente hospitalar, como no bloco operatório.

Esse contexto exige um conhecimento que vai muito além da cavidade oral. É fundamental saber quando intervir, quando adiar um procedimento, a escolha do anestésico ou evitar determinadas abordagens e medicações. Ou seja, o médico-dentista precisa compreender o paciente como um todo, conhecendo a sua condição de base para garantir um atendimento seguro, eficaz e verdadeiramente integrado.

Que mensagem deixa quer deixar aos cuidadores e a todos os outros que lerão essa matéria?

Deixo um apelo muito importante: cuidem dos seus entes queridos com atenção redobrada, especialmente no que diz respeito à saúde oral.

Cuidar da saúde oral de pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo exige mais do que técnica, exige empatia, adaptação e amor. Cada indivíduo é único, com as suas sensibilidades, ritmos e formas de comunicação, por isso é fundamental respeitar essas particularidades durante os cuidados diários.

A higiene oral deve ser incentivada de forma gradual, consistente e, sempre que possível, transformada numa rotina positiva. Pequenos avanços já são grandes conquistas. Além disso, o acompanhamento regular com o médico-dentista é essencial para prevenir complicações e promover qualidade de vida.

Mais do que tratar dentes, estamos a cuidar de pessoas. E isso começa com compreensão, inclusão e dedicação diária.

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