O Natal em Angola tem vindo a assumir contornos diferentes nos últimos anos, marcado por celebrações mais modestas, encontros familiares reduzidos e uma crescente preocupação com o custo de vida. A conjuntura económica tem influenciado diretamente a forma como as famílias organizam a quadra festiva.
A dona de casa Imaculada Quinha recorda que, tradicionalmente, a ceia acontecia em família alargada, com partilha de comida, oração e convivência prolongada. No entanto, este ano a dinâmica mudou.
“Geralmente a nossa ceia tem sido na casa do primo mais velho. À meia-noite nos reunimos à mesa, começamos com uma oração e ceiamos. Esse ano foi diferente, ficámos em casa e recebemos apenas um primo e uma tia. Não foi um grande número, mas foi bom.”
A cantora Imah Veloso associa a mudança no espírito natalício ao agravamento das condições económicas. Para ela, o Natal transformou-se sobretudo num raro momento anual de reunião familiar.
“Nós temos uma correria tão grande que só o Natal consegue nos reunir de forma mais expansiva.”
Sobre os custos, é direta:
“O preço da cesta básica aumentou. Hoje os angolanos estão mais focados em manter o pão na mesa. Uma festa que antes fazias com 500 mil, 300 mil ou 200 mil kwanzas, hoje precisas do dobro.”
Imah esclarece ainda que a sua relação com o Natal é mais cultural do que religiosa.
“Venho de uma família que não comemorava o Natal. Para mim é uma reunião familiar, não exatamente a celebração do nascimento de Cristo.”
Questionada sobre prioridades, resume:
“Na minha família a tradição foi quebrada. Vamos alimentar a todos.”
Já Olga Mayembe revela uma postura diferente, tratando os dias 24 e 25 de dezembro como datas comuns, com foco no afeto diário.
“Procuramos demonstrar amor e união em família durante todo o ano, não apenas numa data específica.”
Ainda assim, reconhece o impacto económico:
“O custo de vida aumentou significativamente, tornou-se cada vez mais dispendioso organizar qualquer tipo de evento.”
Os testemunhos revelam um Natal mais contido, onde a sobrevivência e a união essencial se sobrepõem às tradições mais dispendiosas. Entre a mesa simples e a família reunida, muitos angolanos continuam a reinventar o significado da data.
