Para os amantes de festivais, dezembro tem um significado especial em Angola. É neste período que acontece a Canjala, considerada o maior festival do país. A combinação entre anúncios criativos, animações e o tradicional boca a boca de quem já viveu a experiência cria expectativa, curiosidade e uma ansiedade quase ritualística. Foi esse conjunto de sensações que, no último sábado 27, levou milhares de pessoas de várias províncias de Angola e de diferentes partes do mundo ao Centro de Conferências de Belas (CCB), para a 7ª edição da Canjala.
Uma imersão no “Jogo da Vida”
Sob o tema “O Jogo da Vida”, a edição deste ano apostou numa experiência imersiva inspirada no universo dos videojogos. Para garantir essa proposta, um labirinto foi montado entre o queima-tempo e o túnel de acesso ao evento.
O palco apresentou estruturas que remetiam a um fliperama, ao Brick Game e aos seus blocos icónicos. Os membros da organização circularam com indumentárias inspiradas em personagens fictícias como Sub-Zero, Kitana, Super Mario e Luigi, enquanto alguns batalhões personalizaram as suas fardas com elementos gráficos ligados aos videogames.
A experiência foi reforçada pelos pontos de ativação da Visit Angola e da Unitel, que disponibilizaram fliperamas, mesa de matraquilho e PlayStation 5 (PS5), garantindo entretenimento contínuo ao público.
Música, dança e vivências para além do palco
Durante mais de 13 horas ininterruptas, veteranos e recrutas foram conduzidos por uma maratona musical ao som de 12 DJs, entre os quais HD, H-Fashion, Vadinho, Relâmpago e o convidado internacional Hide N Seek, diretamente da Bélgica.
Para além da música, o festival ofereceu uma programação diversificada, com opções de comida e bebida, espaço de massagens, pintura facial, venda de mercadorias e outras ativações.
Um dos momentos mais simbólicos foi a entoação do Hino Nacional, prática habitual em todas as kitotas, reforçando a exaltação da angolanidade e o sentimento coletivo.
Esta edição da Canjala reservou ainda uma surpresa que prolongou a experiência para além do esperado. Ao amanhecer, quando muitos acreditavam que o festival se aproximava do fim, o evento ganhou um novo fôlego. No interior da própria Canjala, teve início o Show do Mês, um dos mais emblemáticos eventos comemorativos de Angola. A banda da nova energia, acompanhada por Lito Graça, Legalize e Mr. Kim, transformou o espaço num território de dança intensa, onde gingados, riscos e coreografias tomaram conta do CCB e transformaram o encerramento numa nova celebração, reforçando a ideia de que, ali, a festa não termina — apenas se reinventa.
Para além da Canjala: um ecossistema de eventos
Apesar da dimensão e visibilidade da Canjala, existe um universo que vai além das grandes kitotas. Ao longo do ano, o Team Arrogância organiza outros eventos de grande relevância, como Acordos de Bicesse e Kizombayas, além de manter ativos os batalhões associados.
Inspirado num marco histórico ocorrido a 31 de maio de 1991, o Acordos de Bicesse nasce com o propósito simbólico de ressignificar um momento ligado ao fim da guerra civil em Angola. O festival procura associar o memorando a uma experiência positiva, de celebração e convivência, refletindo o espírito de paz que motivou a sua assinatura. Realizado em maio, tem como frase emblemática “Guerra Não” e é atualmente considerado o segundo maior festival de Angola.
O Kizombayas, por sua vez, é um evento mais recente e integra o grupo das chamadas “paragens”, encontros realizados enquanto se aguarda uma grande kitota. Com menor dimensão, reúne amantes de semba e kizomba, criando um espaço de celebração da riqueza cultural desses estilos musicais.
Batalhões: mais do que grupos, verdadeiras comunidades
Os batalhões surgem como comunidades formadas de maneira voluntária por pessoas que acreditam que a união e a organização fortalecem a presença coletiva nas kitotas. Estruturados com hierarquias próprias, contam com generais e responsáveis por áreas como recrutamento, criação, ação social, desporto, redes sociais e marketing.
Ao longo do ano, os batalhões promovem diversas atividades, incluindo doações de sangue, recolha de bens para lares de acolhimento, encontros de integração, ações formativas, marchas de sensibilização para doenças como cancro da mama e da próstata, além de participação em corridas e eventos comunitários.
De convidados a protagonistas
O que começou como a simples intenção de reunir pessoas para festejar evoluiu para algo muito mais complexo. Os antigos convidados tornaram-se agentes ativos na divulgação das kitotas. Desconhecidos passaram a se reconhecer, formaram comunidades, criaram identidades próprias e fortaleceram laços.
Hoje, muitos desses participantes não partilham apenas festas, mas histórias, causas, projetos e, em vários casos, a sensação de pertencer à mesma família. A Canjala e as kitotas deixaram de ser apenas eventos: tornaram-se movimentos culturais e sociais que continuam a crescer para além do palco.
Aspectos importantes e particulares sobre as kitotas:
- Não existe ingresso ou bilhete para participar das kitotas, mas sim, convocatória e não, não são a mesma coisa. Desde que se tenha dinheiro, os bilhetes ou ingressos podem ser adquiridos, já no caso das convocatórias é diferente, pois a aquisição delas é feita somente por veteranos, esses que posteriormente serão os responsáveis por convocar o recruta. Esse todo processo acontece no aplicativo Uzeka – criado pelo Team Arrogância
- Veterano = alguém cujo número de kitotas é superior a 3.
- Recruta = alguém cujo número de kitotas é igual ou inferior a 3.
- Existe horário limite de entrada, que é a meia-noite. Depois desse horário só entram aqueles que possuirem o Golden Ticket.
- Não existe área VIP, Super VIP ou Hiper VIP nas kitotas, significando que todos aproveitam os festivais no mesmo local e EM PÉ , pois é proibido ficar sentado.
- Por mais famosa que a pessoa seja e ainda que possua o Golden Ticket, ao chegar na kitota não receberá tratamento especial, nem prioridade no atendimento. TODOS SÃO ESPECIAIS.









